Vicinho, vicinha. Fonte de imagem: Amazon.

Na narrativa, o protagonismo da criança rompe com a lógica individualista e sugere a interação como experiência.

Vicinho, vicinha. Fonte de imagem: Amazon.
Vicinho, vicinha. Fonte de imagem: Amazon.

Título: Vizinho, vizinha

Texto: Roger Mello (Brasil)

Ilustrações: Graça Lima / Mariana Massari. Com participação especial de Roger Mello (Brasil).

Editora: Companhia das Letrinhas, 2002. 12ª reimp. 2017.

Selo FNLIJ: Altamente recomendado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (Brasil).

Enredo  

Com texto do premiado escritor brasileiro Roger Mello, o livro Vizinho, Vizinha apresenta a rotina individual e solitária de dois moradores que vivem no mesmo prédio. O vizinho do 101 e a vizinha do 102 estão fisicamente próximos. No entanto, passam a narrativa isolados, sem perceber a riqueza que habita ao lado. Por trás de cada uma das portas, os apartamentos são a extensão de seus proprietários: compostos por segredos e diversidades impermeáveis, preservando intimidades, conservando uma vida entediante e indiferente. Interação entre o vizinho e a vizinha? Nada mais do que cumprimentos superficiais e perguntas sobre o tempo. Isso nos raros momentos de encontro no corredor.

Sucedem-se dias e horas. Cresce o tédio e a solidão dos protagonistas. Até o dia em os moradores recebem crianças da família e precisam deixá-las sozinhas. No apartamento 101, fica apenas a sobrinha do vizinho. No apartamento 102, o neto da vizinha. Assim que os adultos saem, as crianças dão nova cara ao lugar e às relações. As portas são abertas, o corredor torna-se colorido e plural, os objetos dos apartamentos se misturam, diferenças passam a compor combinações. As cores vibrantes das ilustrações tomam as páginas de canto a outro. O texto passa a ser composto por frases mais longas, sem hierarquia entre as palavras, as pessoas ou as coisas. As crianças instauram uma nova possibilidade de interação e troca.

Depois que os pequenos vão embora, as páginas são novamente tomadas pela expressão de melancolia. Há silêncio e, ainda atrás de cada uma das portas, os adultos começam a dar sinais de que a solidão e a indiferença podem ser superadas com uma dose de coragem, escuta, troca e empatia.

O outro que se permite ser e revelar

Sem esgotar outras possibilidades de recepção do livro Vizinho, Vizinha, evidenciam-se as personagens infantis nesta obra como mediadores de uma nova configuração das relações. Uma possibilidade de ser e estar no mundo, com maior proximidade, sem eliminar as diferenças. Afinal, são as crianças da narrativa que, de forma assertiva e natural, abrem as portas dos apartamentos de origem e partem para o encontro com a realidade do vizinho. Nesse movimento, deixam-se revelar ao mesmo tempo em que se mostram interessadas e disponíveis ao outro. O encontro produz encantamento. E, nesse sentido, o livro imprime um convite à experiência ética de interagir com o diverso, respeitando e deixando-se conviver com as preferências, talentos e limitações dos demais.  

2 thoughts on “Vizinho, Vizinha: Um livro infantil para repensar a nossa relação com o outro”

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