Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz publicaram pela Companhia das Letrinhas a história do pai da literatura infantil brasileira.

Capa de Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia. Fonte: Companhia das Letrinhas
Capa de Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia. Fonte: Companhia das Letrinhas

Título: Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia

Autoras: Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz (Brasil)

Ilustrações: Lole (Brasil)

Editora: Companhia das Letrinhas, 2019.

Páginas: 88

ISBN: 9788574068572

A vida de Monteiro Lobato em livro

No Brasil, o mês de abril é movimentado por duas importantes datas para a literatura infantil: 18 de Abril, aniversário do escritor brasileiro Monteiro Lobato, Dia Nacional do Livro Infantil, e 2 de abril, Dia Internacional do Livro Infantil, nascimento do dinamarquês Hans Christian Andersen.

Assim, há por todo o país eventos alusivos às datas e outras atividades que visam a ampliar o público leitor e difundir a produção literária para jovens e crianças.  

Às vésperas dessas importantes datas, em março deste ano, uma aguardada biografia do ilustre aniversariante brasileiro chegou às livrarias. Trata-se de Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia, escrita por Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz.

Para além das comemorações do mês, provavelmente o fator que mais estimulou a produção desta publicação tem relação com um com a legislação e o mercado editorial brasileiro.

Passados setenta anos da morte de um autor, de acordo com a Lei 9610/2002, os direitos patrimoniais são extintos. Falecido em 1948, a obra de Lobato entra em domínio público e pode, assim, ser reproduzida integralmente, alterada e/ou adaptada.

Nesse sentido, a biografia pode atuar em duas frentes: do ponto de vista documental, resguardando informações históricas e o contexto de produção das obras e do autor; e literário, ampliando o estímulo à leitura de livros do biografado.

Independentemente da forma de recepção, o fato é que o livro une dois elementos muito atrativos quando se fala em biografia: a relevância literária do biografado e o respaldo intelectual das biógrafas. Às vésperas do lançamento da biografia, a Companhia das Letrinhas circulou um vídeo com as duas pesquisadoras. Nele, Marisa e Lilia debatem sobre o autor, ao mesmo tempo em que preparam a recepção da obra. Vídeo:

Por que vale a pena ler Monteiro Lobato – YouTube

Biografia: uma trama que se tece entre biógrafas e biografado

Monteiro Lobato é considerado o pai da literatura infantil brasileira. Embora não tenha sido exclusivamente um escritor de livros infantis tampouco tenha iniciado sua carreira escrevendo para crianças, foi com este público que estabeleceu uma confessa relação de reciprocidade e interesse.

Com a clara intenção de propor uma literatura infantil nacional, contemplou em seus livros as vivências das crianças brasileiras, buscou ampliar o repertório do leitor infantil e juvenil e utilizou diversos recursos que, até hoje, influenciam a escrita de escritores e escritoras no Brasil. Mesmo depois de décadas da morte do autor, até hoje personagens e lugares por ele criados povoam o imaginário dos brasileiros.

A visibilidade que possuía (e possui) e a forma como ele mesmo se fazia circular na cultura foram determinantes para que seu nome se mantivesse vivo na memória.

Quanto às duas biógrafas, referências nas áreas de atuação, o livro une em autoria dois grandes nomes da pesquisa e da produção intelectual brasileira.

Ao convidar Lajolo e Schwacz para a escrita da biografia de Lobato, a Companhia das Letrinhas sinaliza aos leitores: nesta biografia vocês encontrarão a preocupação com os elementos históricos, antropológicos e literários.

Por quê? Ora, Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia vem assinada e elaborada a quatro mãos, que remetem a combinação dos olhares da Literatura e da Antropologia.

Marisa Lajolo, cuja formação e produção a inserem como o grande nome de referência da obra e vida do biografado. E Lilia Schwarcz é antropóloga e historiadora, responsável pela elogiada biografia Lima Barreto: triste visionário, outro grande escritor brasileiro, cujo tratamento pelo mercado editorial e academia foram sempre carregados por ressalvas.

De biografado à personagem: uma vida entre letras e olhares

Quem escreve uma biografia assume os riscos pelas escolhas que fará ao longo da pesquisa e da escrita. E, provável, nenhum biógrafo hoje alimenta a pretensão de atingir todos os aspectos da vida do biografado.

É sempre um recorte que envolve a consciência de quem escreve e de quem lê uma biografia. É desse modo que o leitor é convidado a assumir o pacto de leitura quando abre as páginas de Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia.

No livro, o biografado torna-se narrador em primeira pessoa e é transformado em personagem-narrador da própria biografia, faz digressões e conversa com o leitor diversas vezes. Nesse jogo, os leitores escutam do Lobato de Lajolo e Schwarcz questões polêmicas sobre sua obra e possíveis justificativas para seus discursos, amparadas pelo contexto de produção.

Tudo isso segue acompanhado de notas explicativas das autoras. O que compõe um rico projeto gráfico e textual, com diversos gêneros textuais dentro da mesma obra. Aliás, em uma só página é possível transitar entre uma capa de livro do autor, uma fotografia, uma nota de rodapé e um fragmento de carta. Leitura, aliás, que replica uma prática bastante comum ao leitor de hoje, que convive com o hipertexto.

Após a biografia do Lobato, o livro traz ainda a autobiografia das biógrafas, notas sobre Lole, ilustradora, e Juliana Vidigal, responsável pela capa e projeto gráfico. Segue ainda uma lista com nove livros sobre Lobato e uma linha do tempo, composta por fatos elevantes da vida do autor e dos eventos nacionais e mundiais que atravessam a vida do autor, que nasceu em 1882, antes da Proclamação da República e da Abolição da Escravatura e morreu em 1948, vivenciando as Duas Grandes Guerras e diversos outros eventos de grande impacto individual e social no Brasil.

Sem eliminar os limites que uma obra biográfica carrega consigo, Lajolo e Schwarcz trazem as Reinações de Lobato em duplo sentido. Primeiramente, como sinônimo de diabruras, traquinagens, travessuras, conforme consta nos dicionários. E, segundo, como possibilidade do verbo “reinar”, enquanto sujeito que construiu um lugar utópico, como o Sítio, e lá institui uma menina como Rainha, uma boneca de pano como marquesa, um sabugo com sapiência.

E, assim, entre textos e imagens, o livro é um convite para conhecer mais sobre as ficções, fixações e convicções de um dos mais representativos nomes da literatura brasileira: Monteiro Lobato, o transgressor que inventou histórias onde muitas crianças conseguiram morar.

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